Por Flávio Ferrari*
Flávio Ferrari é consultor especializado em Gestão
Estratégica, Processos de Decisão, Inovação e Desenvolvimento de Equipes, com
mais de 30 anos de experiência executiva nas áreas de Inteligência Competitiva,
Marketing e Comunicação.
A sigla "O&M" (organização e métodos) surgiu
quando a mais relevante oportunidade para o desenvolvimento das empresas era
investir em seus processos. O conceito de "Reengenharia" foi uma
evolução do O&M. Convidava a repensar a essência dos processos e da própria
estrutura das organizações – pensar "fora da caixa" como se costumava
dizer na ocasião.
A idéia de pensar a empresa e seus fornecedores de forma
integrada, buscando interesses comuns e engendrando ações que potencializavam
resultados, principalmente, por meio do compartilhamento de recursos e ativos,
batizada de "Sinergia", foi mais um passo significativo para o desenvolvimento
dos negócios. Complicou quando "buscar sinergias" passou a ser
sinônimo de "encontrar economias".
Concentrar os esforços na verdadeira vocação (ou missão) das
empresas, terceirizando atividades que não fazem parte de seu core business
pelo desenvolvimento de parcerias estratégicas, foi um movimento fundamental
para conferir maior competitividade. Começou a fazer água quando terceirizar
passou a ser uma maneira de transferir mão de obra para pagar menores salários
e encargos.
Todas essas iniciativas deixaram saldo positivo. Mas
desvirtuaram-se ao largo do tempo, tanto nos objetivos quanto na dose. Um
comprimido de vitaminas por dia pode fazer bem. Tomar o vidro inteiro de uma
vez, intoxica.
Agora chegou a vez da “Sustentabilidade”, o mais importante
conceito estratégico das últimas décadas e, talvez, da história das
organizações. Sustentabilidade é um conceito holístico, oriundo de níveis de
consciência avançados.
Partimos do pressuposto de que todos os stakeholders, de uma
forma ou de outra, investem na empresa e têm expectativas. O conceito de
sustentabilidade de um negócio começa com a ideia de que cada uma das partes
interessadas esteja recebendo um retorno satisfatório por seu investimento.
As partes seguirão apoiando e participando na medida em que
considerem ser essa sua melhor opção, obviamente por critérios distintos, de
acordo com seus interesses. Grau de satisfação, taxa de retorno (ou alguma
medida equivalente), impacto socioambiental, nível de risco, perspectivas de
longo prazo e afinidade com a missão e os valores da empresa são alguns dos
critérios considerados para essa avaliação.
Uma estratégia sustentável é aquela que leva em consideração
as necessidades e interesses de todos os stakeholders e é capaz de garantir os
resultados previamente acordados (ou desejados) pelas partes.
Para que isso aconteça, todas as atividades da empresa
precisam estar alinhadas com a estratégia e oferecendo resultados parciais
capazes de construir o resultado global.
Pensar de forma sustentável garante a perenidade da empresa
por meio do equilíbrio da satisfação dos stakeholders, ponderada por sua relevância.
Não consigo pensar em nenhum outro conceito mais estratégico
do que esse para a gestão de uma organização.
Mas a perenidade é uma coisa que demora muito, os acionistas
querem mais dividendos, os investidores desejam que as ações aumentem de valor
e os executivos não pretendem abrir mão de seus bônus de final de ano (ou de
trimestre, nos casos mais graves).
Então, a sustentabilidade se transforma em um lindo discurso
sobre responsabilidade para o “Balanço Social” e, dentro de casa (nas
empresas), ser sustentável passa a significar reduzir ainda mais os custos para
ser competitivo – na prática, aumentar os dividendos, o que beneficia apenas um
dos stakeholders.
O resultado da somatória dessas distorções é a gradativa
deterioração das organizações. Ou, como diria minha avó portuguesa, "por
fora, bela viola; por dentro, pão bolorento".
Na ânsia de obter resultados de curto prazo os acionistas e
investidores estão se comportando como o protagonista da fábula de Esopo:
"A galinha dos ovos de ouro", querendo colher todos os ovos de uma
vez. Essa certamente não é uma realidade sustentável.

Nenhum comentário:
Postar um comentário